Falta-nos Realidade*?
*apologia a revista Realidade, publicada no ano 1966 e que durou 10 anos. A revista valorizava as grandes reportagens e temas que, até então, não eram noticiados pela mídia.
“O jornalismo literário, o gonzo e outras variantes seriam uma grande oferta para quem está cansado de abrir os jornais e ver que não tem nada diferente do que se leu um dia antes”(1) Xico Sá.
“Jornais e revistas desprezaram por muito tempo os leitores que gostam de um bom texto simplesmente pelo prazer de lê-los e eu acho que este público não quer mais ser ignorado”(1) Matinas Suzuki Jr.
“Sempre busco fazer um texto que o leitor possa ler com o prazer de uma ficção. Isso só é possível com uma apuração tão completa, tão detalhada, que permita ao leitor ser transportado para a realidade que nós, repórteres, tivemos o privilégio de testemunhar. Então, ele pode fazer suas próprias escolhas, ter suas próprias opiniões. Algumas pessoas identificam essas características com o jornalismo literário; para mim, isso é bom jornalismo.”(1) Eliane Brum.
PASSANDO A LIMPO…
“Circulação de diários sofre queda acelerada” nos Estados Unidos, disseram Letícia Nunes e Larriza Thuler, no Observatório da Imprensa, no dia 24 de abril deste ano. (2)
Segundo o artigo, “as vendas dos jornais nos EUA vêm caindo desde o início dos anos 90, mas a queda tornou-se mais acelerada nos últimos anos”.
Isso é atual. Não temos aqui uma ameaça, mas um acontecimento. Mas, por quê?!
De acordo com outro artigo do Observatório da Imprensa (3), falta diversidade nas redações – disseram os jornalistas negros, hispânicos e asiático-americanos. Mas justamente esses jornalistas pertencentes às minorias que perderam mais, do que os brancos, os seus empregos. Ironia? Eles reclamam, eles são demitidos – não entendam aqui o segundo como conseqüência do primeiro, mas é interessante atentar.
Falta, então, diversidade… Diversificar e, eu acrescentaria, priorizar as informações, mostrando ao público mais realidade do que estão acostumados a ler, ver e ouvir nas notícias.
Falta-nos realidade! Faltam-nos realidades reflexivas e, portanto, literárias! Falta-nos tempo aos jornalistas que, como diria Bilac, são escultores da palavra, e também do pensamento – dele e de toda a população. E, como insiste o parnasiano, “trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!” (4). Poeta este que, com a herança da Belle Époque, nos ensinou o árduo trabalho perfeccionista da escrita e que Drummond diria também do conteúdo; já Oswald de Andrade se voltaria à brasilidade – escritor e jornalista-exemplo que nos lembrou o poder das palavras: “O papel impresso é mais forte que as metralhadoras”!
Faltam desejo e espelho do real – mais vivo em pauta fria do que a aspereza gelada que transmite uma “quentinha” – o fogo fez do texto pó, de rascunhos, pedaços, restos – e que, ainda assim, querem fazer dele instrumento de aprendizado. Como? Como aprender com algo feito as pressas? São informações sim, mas desgastantes para a população, cansada de ver tragédias e com sede de conhecimento. Como o assunto da postagem especial anterior, “Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes”, outros assim devem ser mais explorados nos jornais para conscientizar a todos.
Mas ainda temos o Zero Hora e as memórias de Joel Silveira, José Hamilton Ribeiro, Marcos Faerman e Rubem Braga. Ainda temos a saudade do Jornal da Tarde e da revista Realidade, que como diz Rodolfo Viana, “jaz na memória nostálgica de quem tem mais de cinqüenta anos e que lamenta não terem surgidos, nos últimos anos, textos similares aos da extinta publicação da Editora Abril”. (5)
E como o mesmo cita, o gênero literário advém não somente da superficialidade, mas do espaço ocupado pela Internet no jornalismo atual, tornando esse gênero, um diferencial para o impresso. Ele ainda atenta para o papel primordial de informar, antes de ser literário. Mas isso não impede de voltarmos a usufruir com abundância do velho Novo Jornalismo, afinal…
Falta-nos um Novo Jornalismo… E ainda mais novo!
Patricia Faermann.
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1. Retirado do artigo “Um outro olhar de mundo” de Rodolfo Viana, no Observatório da Imprensa.
2. Artigo: “Circulação de diários sofre queda acelerada”, no Observatório da Imprensa
3. Artigo: “Minorias denunciam falta de diversidade nas redações”, no Observatório da Imprensa
4. Trecho do poema “A um poeta”, de Olavo Bilac, retirado de “A magia da poesia”
5. Trecho do artigo “Um outro olhar de mundo” de Rodolfo Viana, no Observatório da Imprensa.

22 22UTC maio 22UTC 2009 às 00:56
Amandinha você é a melhor jornalista de todas ;D
Votei na renovaçao do jornal, mas de uma maneira gradativa para não criar um impacto muito forte ao leitor.
Normalmente os jornalistas só estão preocupados em atualizar informaçoes de fatos recentes e que estão na midia, sem se importar com o conteudo que estão escrevendo.
23 23UTC maio 23UTC 2009 às 23:40
Paty..
Adorei o teu post! Espero que vc continue assim cada vez melhor!
Já sou o teu 1o fã de carteirinha!
O tema abordado é muito interessante pois nos mostra a realidade atual dos jornais impressos e ao mesmo tempo já te mostra qual será a tua missão no futuro (criar um jornal que traga informações de qualidade e não velocidade!)!
Parabens e até o próximo post!
Beijos.