Da caixa preta à digital

 

FOTO MUN(DANA).

            MUNDANOS

                      DANOS

            MUDAMOS

        (I)MUNDOS.

 

“Não foram poucos os impactos sociais, culturais e, sobretudo, artísticos provocados pela fotografia. Nos novos ambientes socioculturais inaugurados pela industrialização, as imagens fotográficas coincidiram com a explosão demográfica, com o aparecimento dos grandes centros urbanos, com o homem na multidão (Benjamim, 1975). A partir disso, o valor simbólico do espaço mitificado do atelier do artista começou a ser ofuscado por novas possibilidades de atuação, quando o artista passou a assumir sua posição urbana, saindo do atelier, abandonando o cavalete e o sonho da natureza em estado puro para colher flagrantes de rua e da vida mundana.” ¹

 

PASSANDO A LIMPO…

 

A máquina fotográfica, assim como toda técnica, desenvolveu-se com o passar do tempo desde os seus primeiros indícios até como a conhecemos atualmente.

Foi em 1826 que tudo começou definitivamente, sem descartar as descobertas (ou “vestígios”) anteriores, com o francês Joseph Nicéphore Niépce e Louis Daguerre, que continuou o seu trabalho após a morte do amigo. Assim, aquelas “caixas” esquisitas começaram a atuar na sociedade francesa e logo alcançaram o mundo todo. Mal sabiam eles das conseqüências que a “engenhoca” causaria para a História da humanidade.

 

 

Na primeira, um fotógrafo com seu laboratório e na segunda, câmera usada por Daguerre.

Na primeira, um fotógrafo com seu laboratório e na segunda, câmera usada por Daguerre.

Mathew Brady fez o primeiro trabalho de fotografia em campos de batalha, mais especificamente, na Guerra de Secessão norte-americana. O que não foi nada fácil, constatando a difícil mobilidade do equipamento, a não existência de “flash” (precisava da luz solar!) e por não fixar nada em movimento. Ele conseguiu, já que o foco da sua caixa preta não precisava fazer pose… Eram mortos. Surgia o Fotojornalismo.

 

 

Fotografia de Mathew Brady na Guerra de Secessão.

Fotografia de Mathew Brady na Guerra de Secessão.

 

O simples, leve, portátil e pequeno das câmeras da Kodak na Primeira Guerra Mundial configurou na presença de movimento nas fotos históricas da guerra. A agilidade e praticidade desse instrumento na Segunda Guerra Mundial acompanharam a censura militar e, conseqüentemente, as imagens de heroísmo, glória e coragem contadas pelos fotógrafos norte-americanos. Na Guerra da Coréia, o fotojornalista David Duncan Douglas, desmascara os heróis e mostra o desespero ao mundo. Na Guerra do Vietnã, o trabalho de Douglas se estendeu para todos os outros fotógrafos, imprimindo dor e velocidade (mais perto do real), o que influenciou diretamente nos rumos do conflito.  

 

Na Guerra do Vietnã, as fotos ganham cor e tristeza.

Na Guerra do Vietnã, as fotos ganham cor e tristeza.

 

 

E, por fim, como cita Larissa Grau em matéria no Observatório da Imprensa, “na década de 90, surge o novo padrão digital de representar o mundo e com ele uma nova questão ética em ambientes nos quais as fotos podem facilmente ser manipuladas em sua essência” ².

Instrumento. Agora era possível manusear a visão. Do inevitável dos olhos passa-se ao poder das mãos. Pois se aquele que segura a máquina quer mostrar apenas uma parte do que os seus olhos captam, ele agora pode. Pode ver glória, onde há dor; pode visualizar a honra ou, se quiser, a infâmia, a desgraça, a calúnia, o medo, a corrupção…

O próprio desenvolvimento da História explica o desenvolvimento da máquina fotográfica, no qual um não foi possível sem o outro. Os impactos causados pelo fotojornalismo, desde a sua invenção, mudaram positiva ou negativamente os percursos da História e continuam no seu papel, enxergando, denunciando ou explicando os fatos para todos aqueles que abrirem uma página do jornal ou ligarem a TV.

A fotografia, ou fotojornalismo, veio para convencer a humanidade cética dos tropeços e pulos da sociedade.

É a captação visual que não tivemos, mas ainda assim, podemos presenciar. É o papel que os olhos não têm de mostrar a quantos forem preciso, o que um único indivíduo pôde, ou quer, enxergar. É a dinâmica paralisada e materializada no papel.

Aquilo que o homem sempre quis: Parar o tempo. Desmascarar o que a velocidade do movimento omite e sem que possamos, ao menos, perceber. E é por isso que ela veio para modificar/denunciar o cotidiano.

(In)Justiças em flashes urbanos.

A história do fotojornalismo, apesar de todas as censuras sofridas, do etnocentrismo e das inclinações ideológicas, é maior do que os seus percalços. Foi o modo que o mundo encontrou para ser apreendido e representado. As imagens que fizeram a história do mundo continuam a fazer presentes aqueles que já não estão entre nós há muito tempo. Essa é a sua função e o que as imagens têm a ensinar. Que o vínculo direto que ela mantém com a coisa representada não seja quebrado pela ausência de confiança naqueles que a produzem.” ³

—–

¹ TRECHO DE: SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano – da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003. p.152-153

² TRECHO DE: Larissa Grau em “Fotojornalismo – A História e representação do mundo”. Observatório da Imprensa, 14 de Agosto de 2007. (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=446FDS003)

³ TRECHO DE: Larissa Grau em “Fotojornalismo – A História e representação do mundo”. Observatório da Imprensa, 14 de Agosto de 2007. (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=446FDS003)

 

Patricia Faermann.

2 Respostas para “Da caixa preta à digital”

  1. Muito bom o tema, já que a imagem(fotografia) torna-se cada vez mais importante no jornalismo!
    A evolução da máquina fotográfica contribuiu para que a noticia ficasse cada vez mais completa e convincente.
    Quer seja a foto de uma guerra ou de um nascimento aproxima jornalista e leitor!

    Sucesso no blog!
    Eliria-escritadura

  2. Pensar esse modo retrospectivo de tratar do desenvolvimento da fotografia e, consequentemente, do modo de representação do mundo através dela foi muito interessante. Conseguiu articular muito bem uma certa “função social” dessa técnica no mundo contemporâneo. Ainda que essa possa ter seu caráter subjetivo altamente presente, isso não tira dela a sua função de “tentar mostrar aquilo que quer mostrar”.
    Parabéns pelo blog!
    Rodrigo

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